jun 222013
 

Matéria: Rodrigo de Aguiar.

rodrigo@papareianews.com

Nosso país demonstrou nos últimos dias o poder da união popular, milhares saíram às ruas para expor suas insatisfações com a nossa atual situação política, os conhecidos casos de corrupção, a falta de investimentos em setores importantes como educação e saúde, além dos exorbitantes gastos com a realização da Copa de 2014 foram o estopim para o que podemos chamar de revolta popular. As novas gerações viveram momentos que ate então haviam sido apenas estudados nas aulas de história e os antecedentes destes novos manifestantes lembraram-se dos dias de luta vividos no auge da ditadura militar e do movimento dos caras pintadas, o qual contribuiu para a saída de Fernando Collor de Mello do poder do país.

Acontece que entre as manifestações pacíficas puderam ser presenciados o cometimento de diversos atos de vandalismo, que não condizem com o ideal popular. As ruas e os principais pontos turísticos das grandes capitais transformaram-se em verdadeiras praças de guerra, o cenário de destruição começou a tomar conta do país e as pessoas não sabiam explicar ou buscavam achar respostas para o que estavam testemunhando.

O pacífico e recentemente democrático Brasil tomou conta do cenário internacional de notícias, os manifestos propostos pelos movimentos organizados ganharam destaque, mas os exageros também foram alvos de críticas e comentários dos mais variados teores.

Com toda esta situação de descontrole começam a surgir na mente diversos questionamentos, mas o principal deles é onde vamos parar com tudo isso? Existe chance deste apelo popular ser ouvido e realmente existirem mudanças drásticas? Para responder esses e outras perguntas convidamos o Cientista Político Cristiano Engelke para auxiliar na solução destas constantes dúvidas e insatisfações.

PN: O que pode se dizer de todos estes movimentos que acontecem simultaneamente pelo país?

Cristiano Engelke: “É extremamente difícil e desafiador qualquer análise neste momento, tendo em vista o turbilhão de acontecimentos a cada dia. A análise feita em um momento pode ser totalmente derrubada horas depois por algum fato novo que mude completamente a perspectiva de análise, exigindo também novas ferramentas, como novos conceitos e formas de pensar a realidade.”

PN: Existe a possibilidade de traçarmos uma linha temporal para buscarmos entender todo este movimento?

Cristiano Engelke: “Vou tratar de alguns pontos centrais:

1) O movimento que surge em Porto Alegre e depois de um tempo chega a São Paulo na luta pelo preço de passagens, que ao sofrer forte repressão avança para um descontentamento com a polícia paulista. Até aí a análise era relativamente simples, movimento de jovens, liderados por partidos de esquerda e movimentos apartidários com um objetivo específico. A partir do momento em que toma uma outra proporção, alcançando uma série de outras grandes cidades do país, principalmente capitais como Brasília e Rio de Janeiro, o movimento se amplia radicalmente e passa a contar com centenas de milhares de pessoas protestando por inúmeros motivos, indo muito além do foco inicial e tornando ampliado, mas difuso e nebuloso os objetivos das manifestações. Hoje os protestos, mesmo com redução dos valores das passagens, que deixaram de ser o motivo, se intensificam, com uma grande violência de ambas as partes – manifestantes e polícia – caracterizando um sentido de massa, de quase descontrole, o que gera uma grande preocupação. Os casos de violência que pareciam ser apenas exceções passaram a ser de grande vulto, mudando mais uma vez a percepção e análise acerca dos protestos.

2) Apartidarismo, “anti-política”, não à corrupção e investimentos para Copa do Mundo são alguns pontos centrais, mas sem lideranças claras, sem propostas, sem uma unidade, a não ser o fato de protestar. Acredito que este seja o ponto relevante e positivo: grande quantidade de pessoas se manifestando nas ruas, um sinal de democracia e participação, com um papel central das redes sociais como fator mobilizador. Porém, vejo certa falta de perspectiva clara quanto ao ponto final, se é que existe ou deva existir.  Se não sei onde quero chegar, quando devo parar? Em uma multiplicidade de reivindicações, muitas delas antagônicas, como satisfazer essas vozes das ruas? As demandas dos protestos se conectam realmente com as tentativas de invasão de prédios públicos, ou estas invasões teriam outros objetivos, e quais seriam? Essa grande mobilização representa de fato uma grande conscientização ou indignação ou um movimento de massa, muito mais seguindo uma manobra?  As ideias de “despartidarização da política” ou de “desideologização da sociedade” são úteis a quem na sociedade e no jogo político? Quais as implicações destes protestos nas eleições de 2014? Estas são apenas algumas perguntas às quais as interrogações permanecem e aos poucos poderão ser respondidas.

3) Ainda é central pensar o seguinte: quem ou o quê estaria por trás dessa onda de protestos? Seria realmente autônomo e livre. Ainda é cedo para saber ao certo, mas acredito que mais importante é saber o que virá a partir de agora. Se não há lideranças explícitas e nem ideologias unificadas – ou a percepção da existência de uma ideologia – significa que temos um vácuo, um espaço vazio, que em política é sempre objeto de disputa. Aí a grande questão: quem ou que ideias prevalecerão? Quais as consequências políticas e institucionais? Teremos um “salvador da pátria” ou um novo “caçador de marajás”? Só nos resta aguardar os próximos dias para, aos poucos ir respondendo este tanto de questionamentos, assim como outros que surgirão. Neste momento já me surge um questionamento que até algumas horas não me preocupava: estamos diante de uma iminente possibilidade de golpe?

4) A questão que fica é: aconteça o que acontecer, a luta maior deve ser SEMPRE pela manutenção e ampliação da DEMOCRACIA! Qualquer movimento em sentido contrário seria um grande retrocesso político e social.”

PN: Estaríamos perto de um novo golpe militar?

Cristiano Engelke: “Infelizmente eu passei a me preocupar fortemente com a possibilidade desses movimentos acompanhados de cataclismos servirem de desculpa para um golpe, com apoio de quem defende mudanças “na marra”, acima de partidos e ideologias, como uma grave ameaça ao Estado Democrático de Direito. Integralismo do século XXI? Não sei, mas não custa ficarmos alertas.

Acreditar que existe um grupo que detém a moral, a verdade, enfim, que pode resolver os problemas passando por cima da democracia é muito preocupante. Manifestação sim, mas para ampliar a democracia e não como um retrocesso histórico.”


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