ago 022012
 

Matéria: Carlos Silveira;

Fotos: José Silveira.

carlos@papareianews.com

O início do Ciclo do Charque em Pelotas ocorreu em 1779, quando o nordeste brasileiro foi castigado por uma forte seca e o rebanho local foi dizimado. O português José Pinto Martins, proveniente do Ceará, onde produzia carne de sol, estabeleceu às margens do Arroio Pelotas a primeira charqueada industrial da região. O local foi escolhido devido estar isento de vento e areia do litoral e estar próximo ao porto de Rio Grande. O charque era utilizado como alimento das mulas de transporte na mineração e para os escravos e, como havia vários países na época que utilizavam a mão de obra escrava, grande parte do charque era exportado. Os únicos concorrentes do Brasil eram a Argentina e o Uruguai, mas como estes viviam em guerra, o negócio era muito lucrativo. O processamento era necessário para a conservação da carne, pois na época não havia frigoríficos.

Charqueada Costa do Abolengo

Charqueada do Barão de Jarau

As demais charqueadas, no total de 38 em 1873, foram instaladas nas margens dos arroios Pelotas, Santa Bárbara e São Gonçalo. A matéria-prima era oriunda do pampa gaúcho, com o rebanho introduzido pelos jesuítas no século XVII. O progresso advindo da venda do charque foi fundamental para a criação da Freguesia de São Francisco de Paula, da vila em 1832 e da cidade de Pelotas em 1835. Devido grande parte do charque ser exportado, os navios retornavam da Europa com livros, porcelanas, quadros, móveis, moda, equipamentos médico-odontológicos, etc., contribuindo em muito na evolução cultural do município. Quando os navios descarregavam charque no nordeste brasileiro e no Caribe, voltavam com açúcar, produto nobre na época. Este fato favoreceu para que a cidade de Pelotas seja reconhecida nacionalmente pelos seus doces. Os charqueadores construíram verdadeiras mansões no centro de Pelotas e na região da Serra dos Tapes (Cascata, Cristal, etc.), já que o cheiro nos casarões das charqueadas era insuportável. Também foram construídos teatros e estação ferroviária na cidade. A sazonalidade na produção do charque (novembro a abril) fazia que a mão de obra escrava fosse desviada para a lavoura e para a produção de peças de barro, telhas principalmente. As telhas eram moldadas na perna do escravo, vindo daí a expressão “fazer nas coxas” para um serviço feito de maneira rápida e sem precisão.

O fim do ciclo do charque se deu por três motivos: a abolição da escravatura em 1888, dificultando a mão de obra, pois cada charqueada contava com aproximadamente 100 escravos; a criação de charqueadas nas cidades que tinham grande rebanho bovino, facilitada pela construção de ferrovias; o início da atividade de frigoríficos no início do século XX. Após o ciclo do charque, os “barões do charque” criaram um novo ciclo econômico em Pelotas, que dura até hoje: o Ciclo do Arroz.

CHARQUEADA SÃO JOÃO

       Foi construída em 1810 em pleno “Ciclo do Charque”. O primeiro proprietário da Charqueada foi Antônio José Gonçalves Chaves, onde hospedou o naturalista francês Auguste Saint Hilaire em 1820. Saint Hilaire aproveitou a estadia na Charqueada para escrever mais um capítulo no livro “Viagem ao Rio Grande do Sul”. Após, a propriedade foi passada aos filhos de Gonçalves Chaves, Antônio José e João Maria. A Charqueada passou, mais tarde, ao genro de João Maria Chaves. No início do século XX, a propriedade pertenceu a João Tamboridengui. Em 1952 foi comprada por Rafael Dias Mazza e pertence à família Mazza desde então.

Charqueada São João

A visitação à Charqueada inclui um passeio pelo interior da casa  e área externa. No interior, é praticamente um museu do charque, com peças utilizadas na atividade, bem como os móveis preservados da época. Todas as peças da casa possuem quatro portas, uma em cada parede, para facilitar a fuga no caso de invasão da mesma. A ideia era criar um labirinto para os invasores, facilitando a fuga dos moradores da casa. A preocupação maior dos proprietários era a rebelião da mão de obra escrava, tanto que dizem que um túnel foi escavado, ligando o fundo de um armário à margem do Arroio Pelotas. Este túnel teria sido escavado por escravos que, após a construção, eram assassinados para não contarem o segredo aos demais. Os vidros das janelas dão visão distorcida de fora para dentro e visão normal de dentro para fora, objetivando a defesa da propriedade. Devido ao mau cheiro da atividade e a falta de segurança, era comum os charqueadores possuírem moradias no centro de Pelotas, muitas ainda preservadas. O lado externo da casa tem-se uma senzala, pelourinho, uma figueira de 300 anos, entre outros atrativos históricos.

Figueira de 300 anos

Senzala e pelourinho da Charqueada São João

Utensílios utilizados na atividade do charque.

A visita é guiada.

O passeio de barco pelo Arroio Pelotas é feito para o mínimo de 12 pessoas (a capacidade do barco é de 16 pessoas). O passeio de uma hora passa por antigas charqueadas. No dia em que realizei o passeio foi no período da FENADOCE de 2009, facilitando atingir a meta de visitantes por passeio. Por este motivo, sugiro a quem deseja fazer o passeio de barco, programar a visita na Charqueada São João durante o período da FENADOCE. O passeio é muito seguro, pois todos os turistas utilizam coletes salva-vidas, fornecidos pela Charqueada. Também é orientado aos visitantes que os mais gordinhos ocupem os assentos traseiros do barco, para que os turistas da frente não se molhem. Outro fato engraçado que ocorreu no dia da visita, é que todos os visitantes aguardavam o barco no ancoradouro da Charqueada, achando que viria de algum ponto do arroio. Mas para a surpresa de todos, o barco surgiu de dentro de um galpão da charqueada, rebocado por um trator.

O passeio é realizado com total segurança.

Barco sendo colocado no Arroio Pelotas.

O local serviu de cenário da minissérie da Rede Globo “A Casa das Sete Mulheres”, representando a Estância da Barra, baseado no livro de Letícia Wierzchowski.


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